Faça da sua casa o Cantinho Inóspito
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Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005
Bom pessoal, estou tentando retomar o blog depois de tanto tempo parado. Inspiração não me faltou, talvez sim tempo para colocar no papel. Não garanto atualizações constantes(o que nunca foi o forte desse blog), se é que alguém ainda passa por aqui. Até mais!
1
Consigo havia algo mais do que roupas, cigarros, um computador portátil e certo desânimo. Passavam-se minutos e horas, e nada lembrava tanto seu tempo perdido naquele quarto da pensão quanto a cama vazia, arrumada, com os lençóis extremamente limpos e passados. O desânimo não era mais aparente do que uma ponta de solidão que recaía, tão densa e pesada sobre seu corpo, naquele momento. Os ombros arqueavam-se à frente formando um arco assimétrico com sua coluna cervical, obrigando seus antebraços a curvarem-se para trás buscando uma posição mais confortável no espaço da cama. A temperatura local não o agradava: a alta umidade aliada ao calor que se acumulara na terra ao decorrer do dia fazia daquele final de tarde um inferno para quem lá pudesse existir, e sentir. O sol se punha, as idéias não podiam tocá-lo. O computador continuava desligado, e não havia ninguém ali para criticá-lo por isso. Fechou as janelas, ligou o ar-condicionado e dormiu.
* * * *
2
Haviam se passado cinco horas desde o nascer do Sol quando Fernando de Souza Guerra abriu os olhos. Um frio rasgou-lhe o corpo, devolvendo sua consciência que fora em seguida mais uma vez atiçada por uma forte dor nas costas. Levantou, desligou o ar e abriu as janelas, percebendo que o céu de brigadeiro do dia anterior havia se deteriorado numa manhã cinzenta e abafada de início de verão. Sacou um cigarro amassado do bolso da calça, acendeu-o e tragou, sofrendo em seguida uma forte crise de tosse. A dor nas costas implicava-lhe conjuros a cada nova contração muscular sofrida pelo tórax. Tossia à seco, não conseguia expelir pigarros, catarros, ou qualquer outra gosma que pudesse tomar sua garganta de assalto. Expelia somente vibrações sonoras, que reverberavam nas paredes do quarto voltando aos seus tímpanos, tentando fazer-lhe reconhecer sua própria tosse.
Recostado numa poltrona ao lado da cama, tendo agora já se recuperado da crise, Fernando observava a fumaça do cigarro pulverizar-se pelo ar até sumir na janela. O ambiente enfumaçado misturava-se ao dia nublado, fazendo uma espécie de degradé em tons de cinza que chegavam até o preto perto de sua boca. O cinza do ambiente fazia Fernando sentir-se mais confortável, mais relaxado, percebendo que nem tudo sempre ao seu redor foi tão colorido como ele sempre imaginou, ou talvez como ele sempre quisera que fosse. Pensava no que teria trazido ele até aquele quarto de hotel, no que faria ele abandonar a mulher em casa e viver as últimas setenta e duas horas numa solidão constante, somente sendo interrompida pelo momento das refeições que eram feitas comunitariamente na cozinha da pensão. Talvez essa solidão fosse programada, fosse necessária para ele voltar a ser o mesmo homem de antes. Talvez tivessem se esgotado suas chances de convívio social, ou quem sabe, estivesse mesmo cansado da mulher e desejasse a separação, mas só agora via realmente o problema.
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postado pelo Mendigo de Baquetas às 1:43 AM
Sábado, Outubro 23, 2004
A Conquista da Virtude
Os pobres, os vencidos e malogrados se reuniram em torno de um bem comum chamado virtude pelo último entardecer. Discutiam sobre como obtê-la, como seduzi-la e como passariam a partir dela a deixar de ser os entes sofríveis que eram. Relataram uns aos outros suas vicissitudes: os pobres praguejavam sobre sua fome e carência; os vencidos sobre sua ambição e prepotência outrora de serem virtuosos e falharem; os malogrados sobre suas doenças e enfermidades. Todos, sem exceção, sentiam-se solitários. Haviam perdido a capacidade de se sociabilizar com seus semelhantes e até com seus diferentes. Buscavam antever sua provável morte pela solidão através do contato com o próximo, pelo amor mútuo e puro entre as pessoas. Seria necessário dessa forma, para serem seres virtuosos, mudar a forma como agiam, passando a ser entes atrativos a virtude e serem passíveis de amar e serem amados. Sendo assim, fez-se a vontade dos homens na Terra. Os pobres, através do auxílio dos vencidos e malogrados, puderam saciar sua fome e sentiram-se mais aquecidos pelas mantas que lhe foram dadas. Os vencidos, vendo como os pobres puderam deixar de ser o que eram através de força de vontade e algum auxílio, tiraram isso como exemplo e passaram a ser mais humildes, não sendo consumidos por sua ambição e prepotência. Por fim, os malogrados vendo a benção que havia sido dada aos outros pela virtude, procuraram levantar-se dos seus leitos e puderam aos poucos curar suas doenças. Todos que ali estavam puderam tornar-se pessoas melhores, virtuosas, estando aptas a viverem juntas, unidas pelo amor que tinham dentro de si. No entanto, a simetria dessa tríade a partir da conquista da virtude passou a ser abalada pela dissonância do amor entres seus entes. Os pobres se apaixonaram pelos malogrados, que acabaram por se apaixonar pelos vencidos, que por sua vez viram nos pobres seu grande amor. A incompatibilidade desses sentimentos não correspondidos gerou uma crise nessa tríade, como também sua ruína. Os pobres acabaram por gastar tudo o que tinham ganho para tentar conquistar os malogrados, que voltaram a ficar doentes pelo amor não correspondido dos vencidos, que também não sendo correspondidos pelos pobres, praguejaram a virtude por ela não conseguir dar-lhes o que queriam. Novamente reunidos como eram antes de possuírem a virtude e se arruinarem, os pobres, vencidos e malogrados discutiam e tentavam achar a razão daquela sociedade ter se esvaído e o porque de amores tão puros serem ao mesmo tempo descompassados. Argumentaram durante horas e não conseguiram chegar a uma conclusão, somente a lamentos. Ao fim da tarde, já exaustos de tanto discutir, deram por fim a sua reunião e partiram, seguindo os mesmos caminhos antes já trilhados por eles. Estavam tristes, solitários, não traziam consigo mais nada além de uma única certeza. Para eles, depois de tudo o que houvera ocorrido, o amor não era nada mais do que puro descompasso, e puro desperdício.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 1:08 PM
Quinta-feira, Julho 29, 2004
Confissões
Anoitece: hora em que as cigarras dão seu cântico lúgubre para o mundo.
E também minha alma é lúgubre, errante por entre túmulos.
Anoitece sobre mim enquanto procuro algum resquício de luz.
Eu não sou luz, não sou puro, não sou bom.
Existo na sombra dos passantes, próximo ao esquecimento.
Sou trevas, sou dono da culpa, não do arrependimento.
Sou maldito.
Em mim reside algo novo, revoltoso, injusto, confuso.
Que faz meus olhos escurecerem, e o peito calar, a boca secar.
Em mim reside dúvida e medo, o medo do novo, denovo!
Medo de sofrer e fazer sofrer, de chorar.
Antes fosse cândida e clara a sorte desenhada nos meus olhos.
Nos meus sonhos, nas minhas escolhas, nos meus amores.
Mas não são.
A sorte é fogo-fátuo, uma estrela cadente a passar e sumir no céu.
É um lance de fortuna que desvia e tange o caminho envolta de sua órbita, que nunca me abraça por completo, só em pedaços.
Minha vida não a possui: por isso não a temo ou sou crédulo de suas ações.
Sou possuidor de vontades mortas por tragédias antigas, congênitas em sua potência.
São elas inexoráveis, seguem revogando tudo aquilo que sempre mais quero e estimo.
E me machucam.
Surge em mim a cada novo dia a essência de uma nova angústia.
Lá fora o céu é negro, a noite nos abençoa.
Lá fora não há luz, somente trevas: o céu lá fora sou eu.
Aqui dentro o que era antes luz não mais existe, não há lembranças póstumas.
Não há o que lembrar ou lamentar; há de se fazer luz do agora e do sempre, para além do que se possa ser, estar ou sentir.
Há de ser possível.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 2:07 AM
Sábado, Junho 19, 2004
Agora penso, na vida ou no nada, apenas penso. Porque pensar, ou sorrir, mentir ou chorar, se não há de se ter mais volta para o que há de se fazer........ fazer talvez lá? Ou aqui? Não, nem lá nem aqui, nem na janela ou acolá na porta. Há de se fazer na cama, ou quem sabe até no sofá........ quem sabe né! Aliás, fazer o que se não faço nada de construtivo a não ser fazer o que os outros esperem que eu faça. Isso é interessante. As melhores coisas que fazemos são muitas vezes aquelas que os outros esperam ou tem alguma esperança que façamos. Estranho! Mas deixa isso pra lá. O que importa mesmo é pensar. Isso! Pensar e raciocinar sem preconceitos, mas claro, com dúvidas! Pra falar a verdade, se existem certezas, não há pensamentos. Imagine, uma vida inteira sem questionamentos ou dúvidas: pra que iria se precisar pensar, se tudo estivesse claro e explicado? Se o pensamento crítico parte da dúvida, existe então aqui a premissa que as certezas levam a ausência do pensamento. Então quem duvida de tudo vive pensando? Mas será mesmo? Eu não sei, por também duvidar que exista alguém que duvide de tudo. Até porque tem muita gente que duvida das coisas muito pouco, e deve pensar pouco também, por justamente não duvidar, pois só pensando é que se têm dúvidas. E as certezas, como é que ficam? Seriam elas o esforço e o resultado do pensamento? Ou elas seriam o não-pensamento em si? A certeza máxima, no caso pra muitos Deus, é inquestionável, inexorável e imutável, e poderia então ser vista dessa forma também como um não-pensamento, somente limitando-se a uma crença. Pra alguns Deus é 10, o Romário é 11, o Capeta é 666, e o Méier - Parada de Lucas é 673. Mas isso é mutável, incerto tanto quanto o tempo, e passível a ele também. Tanto Deus, quanto o Diabo e o 673 são mutáveis, e conseguimos percebe-los somente pela crença e não pelo pensamento. Andam sempre, crença e pensamento, lado a lado, territorializando a existência humana desde a sua criação por alguém, que pode ser 10, 11, 666, 673, + ∞,........... Eu não sei.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 2:37 AM
Quarta-feira, Maio 26, 2004
A peleja do periquito com a capivara voadora
Um periquito voava até um vale de árvores sem folhas e galhos. Não tinham tronco nem raízes, só possuíam sombras. O periquito mesmo assim voava em sua direção, pois não havia mais nada o que fazer, estava bem alimentado e era frígido. Chegando no local, tentou pousar numa das sombras feita por um dos galhos de uma árvore. Obviamente o periquito frígido caiu no chão machucando uma das asas. Depois de estrebuchar, o pássaro frígido, e agora também manco, resolveu voar para outro lugar, pois havia desistido de pousar na árvore. Novamente não conseguiu o que queria. Não conseguia bater a asa machucada, e conseqüentemente não conseguia levantar vôo. Irritado, começou a lançar o bico contra o próprio peito, aplicando uma espécie de penitência por seus fracassos. Seu pequenino peito revestido de penas amarelas foi aos poucos ficando em carne viva, terminando por sangrar. O periquito, já fraco, caiu no chão pela perda de sangue, ao mesmo tempo em que percebera no céu uma capivara que voava velozmente. Ela veio voando até pousar na sombra de um outro galho, e lá de cima via o periquito sangrando no chão. Resolveu descer para perto da ave, começando a lamber o sangue que escorria do seu peito. O periquito não compreendia: como podia uma capivara voadora pousar na sombra de um galho de uma árvore, e ainda lamber seu sangue? E como ele mesmo, sendo um periquito, podia raciocinar e fazer um questionamento como esses? Não agüentando a dor implicada pelas bicadas, e de preocupações por seus questionamentos, partilhou sua angústia com a capivara, reportando a ela o que sentia. A capivara lhe disse que não sabia o porque dela poder voar ou pousar na sombra de um galho. Para ela isso era cotidiano, sempre havia voado e pousado em sombras desde filhote, assim como lamber sangue de periquitos era um costume da cultura das capivaras voadoras. O periquito não conseguia acreditar em tal fato, já que capivaras voadoras lambedoras de sangue não existiam. Sendo assim, negou a existência de tal espécie, dizendo a ela que aquilo era absurdo e não poderia estar acontecendo. O mamífero falou ao periquito que aquilo era tão absurdo quanto um periquito raciocinar e bicar o próprio peito como penitência, assim como era absurdo todo aquele mundo onde viviam. Era uma questão de percepção. Para ela, ser um animal absurdo, vivendo num mundo cercado de coisas absurdas, a fazia completamente normal, completamente ordinária e comum. A capivara terminou de lamber o sangue do ferimento do periquito, dando um beijo em seu bico, despedindo-se e levantando vôo rumo a outro lugar onde houvesse vales de sombras de árvores e periquitos sangrando. Procurava outro lugar onde o absurdo de sua existência se misturasse ao absurdo do mundo em que vivia, onde as contradições fossem tênues. Procurava um lugar absurdamente normal.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 11:05 PM
Sexta-feira, Maio 21, 2004
Quando olhei no espelho as lágrimas que corriam fortes pelos traços do rosto senti meu coração retalhar em mil pedaços. As lágrimas não eram minhas, mas a dor era nossa. A vontade de tê-la é sempre maior que a lucidez que carrego, nunca é feita de certezas e sim de dúvidas o que sinto. O que sinto é o que me machuca: o orgulho, a acefalia dos atos, minha total carência. Diante disso, me ponho de costas para o que me faz bem, me ponho de costas para quem me quer bem, e assim permaneço, até que o tempo me destrua e reconstrua o que sou ou o que era. Não adianta agir, o que há é o que se tem para sentir, e o que se tem é o que há entre nós dois. No final das contas, fica dito que o amor não serve apenas para amar, mas serve também para sofrer.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 2:09 AM
Domingo, Maio 09, 2004
É feito de traições e mentiras seu leito. Possui a Bela, além disso, é Fera, mas nem Fera é, por permitir aos seus gânglios covardia e falácias. A Bela existe sob sua custódia, não há como existir de outra maneira, ela alimenta a Fera com a sua submissão. Passam juntas as horas. A Bela vai vivendo, a Fera vai vivendo junto com a Bela, seguindo sempre o odor do seu ferormônio pela rua. Não consegue mais dividir desejo e insegurança, a heterogeneidade dos sentimentos o faz idilicamente hipócrita. Finge que ama, finge que vive, finge que não fere. Faz de um ato uma briga, de um comentário um álibi. Faz de uma coisa outra coisa, faz dele a própria sombra, faz do seu discurso um esconderijo. A Bela vem a sua morada sempre, junto com os antojos por aquela conjuntura perversa de músculos bem feitos e atos mal ditos. Transforma essa volúpia carnal em banalidades, um mero subtefúrgio de rotina, que permite que se encontrem e coexistam sem culpa. Apolinicamente acéfalo: é essa a definição por natureza de sua existência. Nutre sua força de ameaças, esconde sua grande imagem atrás da Bela, ao mesmo tempo em que é a ela vexante. A Bela às vezes se cansa e quer ir embora, mas a Fera não deixa. Sente medo, sente medo por eles. Mesmo assim ela continua, completamente só, de mãos dadas com a Fera. Sente o peso do mundo em seus ombros, precisa ter coragem por ela e por ele, mas até quando?
postado pelo Mendigo de Baquetas às 1:45 PM
Terça-feira, Abril 27, 2004
Sobre o tempo
Em mim reside o tempo. Não possui forma ou cor, não tem cheiro nem tato. É pragmático por si só, não segue linearidade e é totalmente relativo. Sinto-o somente quando abraço o passado e vejo como o tempo é um poderoso transformador do próprio tempo na sua total concretude. Os processos pelos quais age o tempo são irreversíveis, mas ao mesmo tempo mutáveis, nunca levam-nos a uma mesma realidade, mesmo que os agentes dessa realidade sejam as cartas marcadas de sempre, concretas ou abstratas. Pelo tempo tudo se destrói, nada fica sendo o mesmo, tudo e todos mudam e as relações entre sujeitos e objetos são também passíveis a essas mudanças, a esse caos que nos circunda. Esses sistemas de ações e inter-relações mudam a cada instante, não é possível assim determinar o que seria o presente em si, restando a nós somente observa-lo escorrer entre os dedos. Quando escrevi o "quando" anterior, isso ficou pré-estabelecido como o presente, assim como quando escrevi "presente", isso tomou o lugar do "quando", passando a ser novamente o presente e assim sucessivamente. O presente dessa forma passa a ser um fluxo no limiar do passado, o motor que o movimenta e joga cada instante para trás. Ninguém vê o momento exato da flor se abrir, o que realmente se vê são suas pétalas fechadas e posteriormente abertas, daí se originando a indeterminação do que seria o presente. Já do futuro, o que restam são meramente projeções. O futuro não existe, o que existe são expectativas de talvez releituras do passado, ou a evolução e ainda a revolução do ciclo presente, mas nada mais do que especulações.
O tempo dentro de mim na verdade destruiu o que eu era, todas as minhas impressões e certezas. Trouxe-me decepções, lágrimas, mas também trouxe caos e mudanças. Da maneira como há de ser, espero pelo encontro diário com o tempo, junto à suas ironias e escolhas, para que continue assim seu fluxo natural, até o dia em que viva minha morte.
"The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death"
postado pelo Mendigo de Baquetas às 9:53 PM
Quarta-feira, Abril 21, 2004
Estou partindo com a certeza de que deixo pra trás minha metade mais simples e bonita. Sim, foi necessário viver um verão inteiro para conseguir ver além do que havia diante de mim, para perceber o que realmente se passava comigo. Encontrei alguém que já havia me achado há muito tempo atrás, mas simplesmente não queria acreditar. Sem dúvida estou feliz e tranqüilo. Seria até belo morrer da maneira como me sinto por agora, seria o bastante. Antes que isso aconteça, quero deixar fazer valer minha existência. Não procuro vazios, não quero mais fazer da individualidade uma barreira, mas sim uma porta aberta para outras pessoas entrarem e me verem, principalmente minha mais "velha-nova" amante. Hoje parto, mas deixo minha metade mais simples e bela nas mãos do meu amor. Toda essa metade já é, antes de partir, tão sofrida pela despedida e tão desejosa pelo retorno. Toda essa metade que deixo antes de tudo, é verdadeira, e a outra metade que parte, é também toda saudade.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 1:07 AM
Sexta-feira, Abril 09, 2004
Deus estava sentado a mesa de um bar naquele dia, vendo seu filho ser torturado e morto pelos judeus e romanos, enquanto saboreava uma gordurosa porção de calabresa com um copo de uma cerveja ordinária qualquer. Atrás dele estava eu vendo a mesma cena, mas não conseguia comer minha refeição, pois a brutalidade daquele espancamento havia tirado meu apetite. Minha concentração no Cristo era desviada pelo barulho de choro que vinha lateralmente em minha direção. Percebi que se tratava de uma senhora de meia idade, branca, altura mediana, com os olhos e cabelos negros, que eram parcialmente escondidos por um lenço usado em sua nuca. Portava uma enorme bolsa rosa sob o ombro, e alguns fichários que pareciam catálogos de algum produto de beleza numa das mãos. Do lado da mulher, um grupo de homens fazia uma roda e fumavam maconha. Era estranho, pois choravam e conseguiam rir do próprio pranto ao mesmo tempo. Tinham os olhos vermelhos e as feições lisas, que só ofereciam algum movimento quando um lapso de alegria os tomava de surpresa e posteriormente uma crise do choro se sucedia. Tudo naquele momento me irritava profundamente. A crueldade dos judeus, a inércia de Deus, o pranto da mulher e o cheiro de maconha pelo ar, nada me deixava em paz para continuar meu almoço. Fui então falar com o homem da porção de calabresa, pois era ele o mais indicado para dar um jeito na situação:
-Deus, o senhor não está incomodado com essa situação não? Teu filho está sendo mutilado lá na cruz, uma mulher chora tão energeticamente que doem os ouvidos, e uns homens ainda estão impregnando o ambiente todo com esse cheiro! E olha que nessa parte do bar fumantes não entram, tem uma placa aí na frente dizendo isso. Pra galera da fumaça, a entrada é lá pela outra esquina. O senhor não vai fazer nada não? Pelo menos acuda seu filho!
-Meu jovem, - disse Deus com uma voz fina - ele está morrendo lá pra salvar vocês. É um exemplo de sofrimento a ser seguido, o sangue dele vai confortar a todos depois. Ele o faz para que ninguém precise faze-lo.
-Não entendo, simplesmente não entendo! Exemplo de que, e resposta pra que? Será que para entrarmos no céu teremos que sofrer, sofrer e sofrer? Seu reino seria isso então, privação e sofrimento!?
-Veja bem, veja bem. Quem sofre na terra, terá paz ao meu lado. O reino dos céus é o reino daqueles que mesmo sofrendo não perdem sua fé, e continuam a crer na minha palavra. Quem sofre deve crer em mim, e que tudo será diferente na vida pós-morte, perto do meu domínio.
Não conseguia ver muito sentido naquilo tudo. Mesmo assim continuei a conversar com Deus, já não levando muita fé que ele iria fazer algo pra melhorar as coisas:
-Quer dizer que quem sofre deve continuar a sofrer, restando só a fé de que tudo irá melhorar?
-Exatamente.
-Ah, calma aê! Isso aí já é demais! E os famintos do mundo, como é que ficam? E os oprimidos por outros povos, as minorias, o que elas devem fazer? Só sentar e rezar, sem lutar?
-Foi o que Cristo fez. Ele aceitou seu desígnio. Se sofres, tenha fé em mim que serás salvo. No meu mundo não haverá opressão, choro ou fome - disse Deus.
-Não, não consigo crer dessa forma infelizmente.
-Meu filho, você é livre. Faça o que quiser da tua vida. Está vendo aquele homem bonito ali? É, aquele mesmo na esquina com uma G3 na mão. O nome dele é Lúcifer, rachou comigo há muito tempo atrás por não concordar com algumas idéias minhas e querer ser maior do que eu. Entra na fila e vê o que ele pode fazer, de repente pode até te dar uma luz...
Decidi ir até Lúcifer ver o que ele poderia me dizer, já que o plano que Deus tinha para minha vida não me satisfez nem um pouco. Fiquei uns cinco minutos na fila, até que finalmente chegou minha vez:
-O senhor é que é Lúcifer?
-Fala viciado, qué de cinco ou de dez?
-Calma, calma! Não vim comprar nada, só queria uma informação...
-Pô, foi mal aí. É que acabei de vender um pancadão de cinqüenta praqueles caras ali do canto, e como tu veio de lá pensei que tu tinha gostado do bagulho deles.
-Não eu nem fumo, venho aqui por outro motivo. Acabei de conversar com Deus ali na mesa. Não concordei muito com as idéias dele, e vim aqui pra ver se tu pode me dar uma luz. Por que o senhor rachou com Deus? Como são as coisas desse lado aqui?
Lúcifer ouvindo minhas perguntas soltou uma gargalhada ensurdecedora, não conseguindo nem mesmo controlar-se. Depois de longos instantes de volúpia, começou a falar:
-Fiel, como é que eu vou formar com um velho reacionário daqueles? Garanto que tu deve saber do que eu falo, e garanto que ele não te disse nem da metade dos vacilos de lá! Só pra tu ter idéia do que eu falo: tá ligado naquela mulher chorando pra caralho ali?
-Sei, a das bolsas e catálogos....
-Pois é, ela é a mãe do Cristo, a Maria! Tá cheia de sacolas e catálogos porque trabalha numa sex-shop, e vende alguns produtos eróticos. Só que ela não mostra isso pra ninguém, acha feio e promíscuo. É a maior hipocrisia! Pior que pegam ela como exemplo pra todas as mulheres parceiro... ela já não é cabaço desde os dezesseis, mas todo mundo acha que ela ainda é virgem! Deus pega a imagem dela, pasteuriza e vende o produto pros outros, e geral aceita! Acaba sendo formado esse padrão hipócrita da sexualidade feminina, onde virgindade é exemplo de moral!
Fiquei estarrecido com o que aquele homem me disse. De início não acreditei, mas analisando friamente realmente havia um fundo lógico. Não havia como uma mulher de meia idade daquelas ainda ser virgem, ainda mais parindo um filho. E seria interessante para o próprio Deus fazer uma outra imagem de Maria, até para colocar seu filho acima de todos os outros homens, já que ele não teria a marca do pecado original.
-E ainda tem mais maluco! - continuou Lúcifer - Tá vendo o bonde da esquadrilha da fumaça lá atrás?
-Sim claro.
-Eles são os apóstolos! Todos ali usam da erva direto se tu não sabe... e ainda vem comprar comigo, desse lado aqui. Por que que tu acha que na Bíblia existem todas aquelas metáforas absurdas e um bando de contradições? Os caras tavam todos "chapados" quando escreveram o novo testamento. Principalmente Paulo, esse aí é o mais frenético do bonde...
-Pô Lúcifer, não acredito nisso! É muita coisa junta pra mim. E como são as coisas por aqui, do teu lado?
- Aqui não existem leis, você faz o que estiver afim, sem julgamentos. A galera aqui é muito sangue-bom tá ligado, só bonde "de cria" bolado... Dá uma olhada ali pro lado que tu mesmo pode conferir.
Olhei para o lado e me deparei com uma cena única, inimaginável para qualquer um, inclusive pra mim até aquele momento. Álvarez de Azevedo, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir participavam de um ménage-à-trois, enquanto Nietzsche observava-os, contemplando a beleza daquelas formas num voyerismo filosófico que transportava aquele mundo para além do bem ou do mal. Não restava dúvidas, só tinha que fazer a pergunta final à Lúcifer:
-Como posso fazer pra entrar aí nesse lugar?
-Tu já entrou fiel! Ache um canto pra tu e vá ser livre, sem ficar de "neurose" com rótulos, recriminações ou dogmas. Agora vai vazando que tem neguinho esperando na fila.... o próximo!
postado pelo Mendigo de Baquetas às 6:24 PM
Sexta-feira, Abril 02, 2004
Tinge lençóis com tinta do teu suor pelo prazer. Marca na carne tua marca e morde a boca que te beija com ardor nessa hora. Desfaz seus braços sobre meu peito e teus medos sobre minhas dúvidas, pois somos o agora e não promessas. Faz do meu corpo testemunha dos teus desejos, do empirismo dos nossos ímpetos, da comunhão de duas vontades vivas diferentes. Segue tangenciando o caos nos atos, quebrando toda linearidade do tempo, transformando o presente num conjunto de ações imprevisíveis tanto quanto irreversíveis. Atiça a química fervente em nosso sangue quando a solidão nos acompanha, quando as sombras são nossas testemunhas ao entardecer do dia e estamos um pelo outro. Prova do gosto adocicado que minha língua retém pelo toque ao jorro que surge a cada nova vontade vivida, não importando julgamentos ou remorsos sentidos. Deita em pleno leito ao meu lado e cala os gemidos que suplantam nossas vozes. Olhe meus olhos, o que vês? O mesmo castanho de antes, mas como podem ter a essência tão diferente assim mesmo parecendo iguais? Sirva da mudança para a benção da própria sorte, pois quando ler novamente o que escreveste em mim, saberás o quanto admiro tua força.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 1:34 AM
Segunda-feira, Março 22, 2004
A beleza por trás dos olhos de quem vê não é mais do que um gesto tímido, envergonhado, quase vulgar de sentir. Por trás dos olhos não há beleza - somente timidez e dúvida - quem sabe também eu esteja por lá. Talvez não importe tanto o que está atrás, mas sim o que se tem à frente dos olhos. A beleza encontra-se frente aos olhos, e seu reflexo prende quem a olhe ou a deseje. Ao redor tudo desaparece frente a sua magnitude, o que fica são lamentos de admiração, que perseguem um instante de sua atenção, nem que seja uma simples, mínima e breve feição amistosa. Será que alguém percebe que além de tudo isso existem outras feições mais reais, e não tão abstratas assim de se ver? A vitória da beleza e a derrota dos normais fazem parte do cotidiano daquele que tem o espelho como cúmplice de sua própria deformidade, que por isso perde sempre mesmo sem ao menos tentar. Talvez eu queira mudar, talvez eu não acredite, talvez eu até esteja mentindo, mas o que importa nesse caso é o real, e não o abstrato. Se um dia olhares para o espelho e perceberes que a beleza abençoou-te a face tome cuidado: um olhar fixo a outro pode não parecer nada, mas pode também deixar um coração intrigado.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 9:52 PM
Terça-feira, Março 09, 2004
Figuras e Vermes
Vivendo na insanidade de um iconófilo
Mirei ao longe nesse entardecer funéreo
Figuras funestas, de semblante amórfico
Pareciam estátuas de mica num cemitério!
Atormentavam a paz do meu corpo
Faziam de mim seu prisioneiro franciscano
Semelhante à frialdade de um morto
Como no paralogismo do verso parnasiano
Rugiam ferozes, pelas câmaras e galerias
Açoitando cadáveres, repartindo a epiderme
Retalhando suas almas na verdadeira orgia
Todos ali reunidos - as figuras e os vermes
Decompuseram seus seios em sagradas lousas
Na sepultura mais bela ornamentada com flores
Eternizando esse cemitério onde hoje repousas
No lugar em que um dia enterrei meus amores!
postado pelo Mendigo de Baquetas às 1:46 AM
Segunda-feira, Março 01, 2004
Mexa os braços, dance! De um pulinho para o lado e entregue-se ao delírio da carne: você é carioca e jovem, com um pouco de sorte pode até ser atraente, e com certeza tem o mundo aos seus pés. Dancemos, gritemos, beijemos a esmo a tudo e a todos, nada mais importa exceto a potência epicurista em nossas entranhas. Deus há de perdoar seus filhos, pois afinal é carnaval, não existem razões para o bom cristão culpar-se ou se reprimir, a cinza da quarta redimirá todos os pecados praticados. Para o bom cristão eu não sei, mas para o bom ateu a paisagem e a atmosfera dessa festa pode ser às vezes muito estranha. Antes de tudo o carnaval não é uma festa do sexo. Olhe para o lado e conte quem gozou nesse carnaval; agora olhe para debaixo dos pés e conte além dos mortos, quem permaneceu imaculadamente puro ao sexo. Será que ainda assim os filhos de fevereiro continuarão a ser batizados com sêmen? Pelo jeito não, pelo jeito o sêmen foi resguardado e o batizado será feito com frustração carnavalesca, puramente cultural e não sexual de passar em branco essa data. Agora, se o sexo não é sua base, o que seria o alicerce dessa festa então? No carnaval, todos querem parecer ainda mais agradáveis aos olhos de quem vê. Os papéis são invertidos, as personalidades se modificam, a poeira se levanta e novos homens e mulheres surgem da estética. Na verdade o carnaval nutre suas forças no ego de cada homem, no prazer de sentir-se desejado a cada olhar provocante de desconhecidos que o observam. É a satisfação de despertar no outros desejos de luxúria e finalmente contempla-los ao toque dos lábios. O prazer fica pra depois, o importante agora são os números, que fazem do carnaval também uma festa quântica. Negras, morenas, ruivas, loiras, figuras belas, figuras horrendas, magrinhas tristes, gordinhas felizes, balzaquianas e até crianças, tudo são números e o que importa é o ego e o desejo desesperado de sentir-se desejado. No final das contas o carnaval é uma festa que serve muito mais para levantar egos do que poeira.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 7:54 PM
Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004
Impressões de um shopping à noite
Fome, quem não come é o homem, talvez um BigMac? Não, ninguém come, porque o homem não possui nada, a não ser fome. Eu sou humano, e como. Tu és humano, e comes. Será ele humano? E ela, tão bela, será que come? Não, essa aí não, ela não come porque tem medo de perder a pose, pois todos querem come-la. E aquele outro ali, que parece homem, come também? Esse sim, come com vontade todas as calorias existentes em seu prato, mas não come ela, porque ela acha tudo isso muito promíscuo, não quer ser comida, pois antes de todo mundo ela não come! Eles têm apetite, eu também tenho apetite, é inegável o que sentimos. Nossa diferenciação é na expressão: uns admitem que sentem, outros reprimem aquilo que sentem, a há os miseráveis que não sentem absolutamente nada, frígidos e sem paladar. São inertes, mas tem uma certa originalidade, são orgulhosos por não sentirem, e menos angustiados do que aqueles que escolhem se reprimir. São estes meninos e meninas que encontram-se nessa paisagem moderna. São tão vivos, alegres, bonitos e falantes, dotados de trejeitos únicos, instigantes ao olhar e a imaginação à primeira vista. Preferiria não acreditar em sua repressão, e ter companhia ao vivenciar essa cena. Acabo vendo que nesse shopping todos têm fome. Todos querem comer e ser comidos bem, mas ninguém consegue admitir, ninguém consegue ver no próprio rosto a fome que se instala, a cada momento que se sucede, a cada segundo, a cada olhar entreposto no corpo alheio, na própria respiração ofegante, e reprimida. Somos todos um bando de hipócritas e de certa forma muito esfomeados.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 1:21 AM
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