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Quarta-feira, Dezembro 24, 2003
Tinha dentro do peito mais do que um coração, tinha ódio. Via no espelho a sofreguidão das costelas expostas pela pele fina de seu tórax ao enxugar-se do banho e maquiar-se para a ceia. Sentia nos ombros o peso do Natal, e a indiferença por essa data que seguia. Andava pelo quarto com passos miúdos, as luzes apagadas e a visão admirando as luzes da cidade. Cheirava o ar e deu-se conta que mais um final de ano havia chegado; Percebeu o cheiro das rabanadas que sua mãe havia feito para o jantar e do perfume barato que seu pai usava. Via o ano passar diante dos seus olhos, quando se lembrou daquela noite fria de Julho em que sua vida mudara. Duvidava se fora para melhor, mas no fundo sabia que sim, só tinha uma tênue mágoa do passado. Atravessou os cômodos da casa ao encontro dos pais que tanto lhe amavam, e mesmo assim não viam em seus olhos o que ali residia. Não os culpava, via neles uma existência burocrática que os fazia insensíveis ao mundo, mais preocupados com seus sonhos do que com a vida. Prosseguia seu martírio retornando ao quarto, ouvindo como se fosse a última vez suas músicas preferidas de um CD qualquer. Via na plenitude de seu estado a razão de suas dúvidas e questionamentos. Já tinha visto isso acontecer na vida de outras pessoas, e agora se dava conta que acontecera na sua também. Ficou irritada, escolheu ensurdecer-se da música e refletir em silêncio, pois só assim conseguiria achar uma razão, um sentido que arrancasse do peito o que sentia. Mesmo assim não conseguia achar o que procurava. Estava cansada, sonolenta pela própria incompetência da busca, decepcionada por não conhecer-se. Passou então a embeber o silêncio do seu quarto, caindo num esquecimento profundo de si mesmo. No entanto, até seu esquecimento era impossível, pois um ruído compassado quebrava o silêncio do ambiente. Ouvia como se fossem rudimentos num bumbo, inabaláveis, irritantemente constantes, que pungiam do seu peito a cada nova contração. O que ela na verdade percebera eram os batimentos de seu coração, que só continuava a bater por pura falta de opção. Sexta-feira, Dezembro 12, 2003
À Diego Barcellos, o Corsário Maria era uma mulher recatada, de moral e costumes invejados por todos em sua comunidade. Viva uma vida centrada, sem excessos, tendo como únicas preocupações sua família e a vida religiosa, sustentada por uma fé fervorosa. Morava num casebre em São Cristóvão, no Morro do Tuiutí, junto com seu marido e único filho, adotado depois da mãe biológica ter morrido no momento do parto. Sua rotina se resumia aos afazeres do lar, um casamento infeliz, e as reuniões dominicais mediadas pelo padre Fausto, sempre regadas de muita discussão quanto às finanças da igreja, e principalmente debruçando-se sobre a conduta moral de seus fiéis. Participavam dessas reuniões além de Maria e seu filho algumas poucas pessoas de sua comunidade, curiosos em geral, e mortos de fome que eram atraídos pelo lanche oferecido ao final de casa sessão. Afora essas pessoas, esta mulher de 26 anos, dotada de feições cândidas e corpo tentador, vivia cercada por algumas criaturas ignóbeis, nas quais tudo era a ela insuportável, principalmente suas tentações quanto ao seu sexo. De um tempo pra cá, ela vinha se sentindo sufocada pela relação problemática com o marido. Este se queixava do cansaço pelo trabalho árduo como pedreiro, e usava isso como justificativa para todos os problemas de seu casamento, principalmente quanto sua ausência como marido, até nos momentos mais íntimos do casal. Rejeitada, Maria tinha sua angústia agravada pela desconfiança da traição. Inúmeras foram às desculpas esfarrapadas pela chegada tardia em casa, e não foram poucas também as escapadas noturnas do marido. Exausta, e cansada de tentar argumentar com o companheiro, Maria foi à igreja procurar a ajuda do padre Fausto: - Padre, estou tendo problemas em meu casamento. Temo que nosso amor chegou ao fim. Não nos amamos há mais de seis meses, e tenho sérias desconfianças de que meu marido me trai. Já tentei conversar com ele, mas foi inútil... O padre após a indagação da fiel, fez uma breve pausa e replicou: - Minha filha, problemas no casamento são normais. Peço-lhe que volte a sua casa e tente entender o cansaço do seu marido, pois é ele o chefe do lar, e é ele que há de decidir o que é bom ou não para o seu casamento. E o amor de vocês é incorruptível, pois seu casamento foi abençoado por deus, pelo poder investido em mim. - Mas Padre! - falou Maria - Eu não suporto mais viver ao lado deste homem! Ele não cumpre suas obrigações como marido. Me sinto só, desamparada! E ainda este cafajeste me trai! Cheguei a encontrar uma carta endereçada a outra mulher no bolso dele! Se deus deseja que seus filhos sejam felizes, e por ele nos ter dado o livre-arbítrio, eu tenho o direito de tentar que tudo seja diferente, e que eu tenha um pouco de paz! Odeio admitir... mas acho que nossa separação seria o caminho mais lógico. - Calúnia! Como ousa dizer uma coisa dessas mulher? - esbravejou o padre, que tinha as veias do semblante saltadas de raiva - O que deus uniu não pode ser desfeito! O desgosto de sua vida é sua responsabilidade, e cabe a você aceitar, não culpe deus por isso! Seu martírio pode ser castigo por uma vida pecaminosa, cheia de pensamentos ruins, que a fazem dizer essas falácias! Tu és douda! Maria já tomada de ódio pelo padre e por tudo aquilo que a cercava, serviu-se desse sentimento: - Padre, o senhor não entende. Meu marido não me come a seis meses! E não culpo a deus... O erro foi meu, em acreditar que somente deus poderia fazer minha vida um paraíso, e não eu mesma! Vejo que se agisse mais por mim, e não por deus, poderia hoje ser mais feliz... Acho que fui cegada pela minha fé, esqueci de mim mesma e da minha vida no final das contas. O padre irritado levantou-se, e fitando Maria nos olhos, praguejando-lhe em pensamento pelos questionamentos que ela havia feito, conseguiu somente lhe dizer: - Este é o mistério da fé minha filha, não há provas e sim crenças. Se seu marido não lhe cumpre o coito, isso é um desígnio de deus, pois ele colocou vocês em comunhão nessa vida, e o celibato pode ser a provação da tua fé, e somente com ela tu serás salva. Agora saia! Sua presença aqui é importuna tanto a deus, quanto a mim! Saindo da pequena capela na parte setentrional da favela, estava decidida a ser alguém que nunca fora, e a partir daquele instante, faria tudo o que lhe viesse em mente, entregando seu destino à própria sorte. Eis que surge na janela da casa vizinha a igreja um antigo "namoradinho" de infância. Seu nome era Diego, famoso malandro da região, chamado por todos pelo apelido de "corsário", devido ao seu talento para amante incorrigível, capaz de roubar a mulher que desejasse, como um pirata saqueador de navios. Era uma criatura de rosto delgado, linguajar manso, andar ritmicamente regido pelo ruído do seu chinelo atritando ao chão, e que tinha na magreza de seu corpo a dissonância de sua existência. Ao ver seu antigo amor, Maria não hesitou: soltou seus cabelos ao ar, abrindo sutilmente o botão da blusa que escondia parte de seu peito, deixando nu não só seus ombros e seios, mas também as amarguras que havia sofrido. Caminhou lentamente em direção ao antigo companheiro, que vendo a aproximação de Maria, logo se prontificou a abrir-lhe a porta, convidando-a para entrar. Assim que os dois encontraram-se sós no único cômodo da casa, aquela mulher que antes sentia ojeriza aos homens que a desejavam, despiu-se completamente, entregando suas formas as mãos de Diego. O "diabo-magro" que se pôs à frente de Maria, cobriu-lhe o corpo de beijos e a alma de ternura, fazendo sua carne tremer, desejando ela que aquele momento nunca terminasse. Finalmente tudo ficava claro em sua mente. Sentia uma paixão imensurável penetrar-lhe o corpo, um sentimento maior do que tudo o que havia experimentado, maior do que a estima que tinha ao seu pai, ao seu filho, e até ao seu espírito, que dava formas tão sensuais ao seu corpo santo. Na loucura que se seguia, no momento do grito que precedia o gozo, refletiu e dava por certo sua verdade, revelada não por deus, e sim por ela: sexo realmente era puro e simplesmente o caralho. Sexta-feira, Dezembro 05, 2003
Porque é que aquilo que faz a felicidade do homem acaba sendo, igualmente, a fonte de suas desgraças? Percebamos que não há felicidade sem penúria. Só percebemos uma depois de termos experimentado a outra, sendo análoga a fonte desses sentimentos muitas vezes. Quem sofre, ou já sofreu por isso sabe da dor de perceber um sentimento genuinamente bom, se transformar num tormento, num morto-vivo que se alimenta de lembranças e amarguras, que se arrasta por todo canto imitando nossa própria sombra. Como se não bastasse, essa dor não é construída à posterioi, mas antes, quando se espera que o "pra sempre" seja realmente eterno. Esse "agora" é uma dicotomia perversa que inclui a volúpia e o temor da efemeridade desse sentimento, subjugando o homem a angústia de ser, e manter-se feliz. A ironia da forma é que essa dicotomia não permite que os sentimentos sejam absolutos, sendo a felicidade passível do medo de malograr-se, e a penúria pela vontade de mudança, maximizada e projetada na esperança. Ainda existem facetas na percepção , diferentes formas de ver e sentir, e maneiras de confrontar os fatos. O porque da origem de tanta felicidade e penúria serem as mesmas, acho que ninguém sabe ao certo, sempre seremos passíveis. Vivamos... pois a vida é doce. |