Faça da sua casa o Cantinho Inóspito
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Sábado, Janeiro 24, 2004
Às vezes meu corpo punge de desejo quando forjo meus olhos ao encontro do esterno nu ali presente. A boca seca, o tato suprime, meu sexo se engaja de fúria pelo toque de seus metacarpos em meu abdômen, acariciando minha pele branca com suas falanges vorazes. As mandíbulas procuram pela minha boca e devoram os lábios por pura diversão, para satisfazer o vazio que existe entre suas costelas e omoplatas. A mesma mão direita lançada ao ar arrepia-me a espinha e faz meus ossos tremerem, da tíbia à clavícula, unindo meus côndilos e epicôndilos pela satisfação do gozo, fazendo desse não somente meu esqueleto, mas o seu também. As caveiras, os ossos, as cismas de meu destino, o suporte para minha carne deu também plataforma para a paixão, enquanto hoje escolhi não amar, apenas viver e existir.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 1:59 AM
Domingo, Janeiro 11, 2004
Bate outra vez com remorsos um coração com a certeza de que as escolhas de hoje serão as lamentações do amanhã. Bate outra vez como o punhal ao peito, como o tapa à face, como os sinos que anunciam um cortejo ao cemitério. Bate não por mim nem por ninguém, bate porque o sangue lhe penetra o ventrículo e irriga-lhe as veias. Bate por não haver escolhido ser o que é, e por carregar escolhas que não lhe pertencem em suas artérias. Queria bater só por ele, mas bate por bater, bate pela pura ironia de sua vida. Essa ironia não é criada somente por batimentos e lamentos, mas por três rosas que nasceram juntas sob a penumbra que lhe recobre o peito, inerente aqueles que riem sem ganhar, aos que choram sem perder, e aos gemem sem amar. Esta sim, é a sombra sob as cabeças dos vencidos, e hoje, este quarto fica sendo seu mausoléu, seu sangue o vinho, e o coração que bate, é sim meu túmulo!
postado pelo Mendigo de Baquetas às 12:19 AM
Sexta-feira, Janeiro 02, 2004
Inda antes pelo último anoitecer o amor caminhava a passos largos ao meu lado como um defunto ébrio, excretando pela boca um pus amarelo que escorria pelos lábios até atingir o solo. Tinha a epiderme coberta por chagas e o rosto marcado por cicatrizes e feridas profundas, que davam à pele tons avermelhados e roxos, que se assemelhavam a um pôr-do-sol de verão. Disse-me que não era herdeiro do afeto, da compreensão, nem do respeito, e sim da dor. Não possuía um dos olhos, e o outro estava malogrado por uma cegueira congênita que lhe atacara a visão no momento do nascimento. Vivia sua caminhada errante pela terra em busca de carne para comer, pois era antropófago. Vacilei em confiar no amor, pois quem, diga-me quem nesta terra de malditos confiaria num mancebo enfermo, mal-cheiroso, e que ainda por cima tinha como dieta à carne humana? Mudei meu rumo e despedi-me sem demoras, para nunca mais haver de encontra-lo. Percebendo minha partida, o amor entrou em desespero e quis me seguir. Possuía as feições como de um pobre esfomeado, sedento por comida. Cortejava-me como um urubu na carniça, enquanto a cada movimento seu minhas vísceras contraíam-se de pavor pela visão daquela criatura horrenda. Disse-lhe para ir embora, pois já havíamos nos encontrado numa outra ocasião e agora não desejava mais sua presença por perto. O amor irritou-se comigo, acusando traição e me atacando. Sua força era estúpida, o que poderia eu fazer? Havia me possuído por completo, das falanges dos dedos aos fios do cabelo, cravando seus dentes podres em meu pescoço. Estava cego de desejo, sugava com vigor o sangue que a essa altura recobria meu ombro esquerdo, matando toda sua sede. Depois de saciar-se, se livrou de mim dizendo que tudo ficaria bem, pois eu já tinha passado por aquela experiência uma vez e havia sobrevivido. Virou-se e seguiu seu caminho deixando-me para trás, sendo interrompido por uma forte dor no peito que o fez cair no chão. Levantei-me cambaleando e fui ao encontro do amor, podendo somente sentir seu corpo frio e sem vida entre meus braços. Saciou em meu corpo sua sede, bebendo do sangue envenenado por ele mesmo em nosso outro encontro. Estava tudo novamente em paz para mim. Era alta madrugada, logo logo o sol iria nascer. Havia matado o amor.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 4:58 AM
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