Cantinho Inóspito

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004

Impressões de um shopping à noite

Fome, quem não come é o homem, talvez um BigMac? Não, ninguém come, porque o homem não possui nada, a não ser fome. Eu sou humano, e como. Tu és humano, e comes. Será ele humano? E ela, tão bela, será que come? Não, essa aí não, ela não come porque tem medo de perder a pose, pois todos querem come-la. E aquele outro ali, que parece homem, come também? Esse sim, come com vontade todas as calorias existentes em seu prato, mas não come ela, porque ela acha tudo isso muito promíscuo, não quer ser comida, pois antes de todo mundo ela não come! Eles têm apetite, eu também tenho apetite, é inegável o que sentimos. Nossa diferenciação é na expressão: uns admitem que sentem, outros reprimem aquilo que sentem, a há os miseráveis que não sentem absolutamente nada, frígidos e sem paladar. São inertes, mas tem uma certa originalidade, são orgulhosos por não sentirem, e menos angustiados do que aqueles que escolhem se reprimir. São estes meninos e meninas que encontram-se nessa paisagem moderna. São tão vivos, alegres, bonitos e falantes, dotados de trejeitos únicos, instigantes ao olhar e a imaginação à primeira vista. Preferiria não acreditar em sua repressão, e ter companhia ao vivenciar essa cena. Acabo vendo que nesse shopping todos têm fome. Todos querem comer e ser comidos bem, mas ninguém consegue admitir, ninguém consegue ver no próprio rosto a fome que se instala, a cada momento que se sucede, a cada segundo, a cada olhar entreposto no corpo alheio, na própria respiração ofegante, e reprimida. Somos todos um bando de hipócritas e de certa forma muito esfomeados.

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004

As horas vão passando, meus medos não cessam, definitivamente não irei conseguir dormir. Tento, faço de tudo: fechos os olhos, apoio minha cabeça nos ombros, esvazio minha existência do meu corpo, mas as tentativas são em vão. A esmo fito outro olhar no escuro, todos dormem ou sonham que dormem, menos eu. A minha volta o ar é hostil, pesado, não me faz bem. Sinto-me débil, angustiado pelo que vejo, tenho ódio de mim mesmo por tudo isso, por ser passível de sentir. Ao menos me sinto vivo novamente, somente pelo ódio, vivo e respiro pelo ódio, e só.
As horas vão passando, minha ossatura converge em pranto. Sou egoísta, escolho não dividi-lo com ninguém. Quero lágrimas só minhas, quero agora uma morte pessoal, sem ritos ou lamentos, quero somente a indiferença de todos. Reviro-me de inquietação na dança mórbida dos minutos que se seguem - eles não me deixam indiferente. Tenho náuseas, não choro mais. Meu sofrimento é mudo, como deveria ser, como eu mesmo escolhi que fosse, simplesmente meu. Vejo que só eu posso fazer mal a mim mesmo, e a mais ninguém.
As horas agora passaram, não encontrava formas tão distintas num único arranjo de tempo há séculos. Olho pela janela o horizonte, a mesma vista de antes, só que agora outros olhos. Amanhecera, o céu está nublado, cai uma chuva orográfica. Tenho muito frio, me sinto só, continuo não achando meu sol nas vicissitudes do meu presente, e percebo que ainda estou doente.

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004

Aberrações

Meu mundo é feito de aberrações disformes e imperfeitas, fruto de contradições nascidas de minhas escolhas e vitimadas pelas sucessões dos meus atos. São elas, minhas filhas, lindas e sadias, amo-as como se fossem partes de mim mesmo! Sempre muito bem educadas, desde cedo já engatinhavam pelos meus sentidos, sendo educadas pela rejeição nas suas mais diversas formas e facetas perceptíveis. Carentes e egoístas, não me deixavam sozinho por um minuto se quer, tomando-me todo tempo com suas brincadeiras e questionamentos, os quais muitas vezes não conseguia dar-lhes respostas. Fomos tendo essa coexistência pacifica e irritante até que eu, hospedeiro de seus devaneios, fui surpreendido pela verdade que me foi imposta mais uma vez pelo mesmo acaso que até então supria as necessidades dessas aberrações. Meus tímpanos nunca tinham sido tocados pelo peso daquelas palavras, não conseguindo manter constantes as vibrações de sua membrana, a ponto de conseguir vibrar somente pela felicidade daquele momento. Ah! Antes fosse completo aquele instante para o bem de todos que ali estavam! As aberrações não me deixavam compartilhar daquelas palavras, colocando-me impassível à qualquer sentimento, a não ser pela culpa de ter sido capaz de ouvir tais palavras e continuar não sentindo nada! Passei desde então a não existir. Preferiria mil vezes ser enterrado vivo e ter a alma jogada ao inferno do que ser condenado a esse martírio em vida. Não sentir é por completo não existir, e o não existir é negar a potência de sentir e poder ser livre, até mesmo para sofrer. No final de tudo, vendo melhor esse mundo, percebo que minhas impressões sobre ele estavam erradas. As aberrações nunca existiram. O que existiu aqui sempre foi e será somente eu, e nada mais.