A beleza por trás dos olhos de quem vê não é mais do que um gesto tímido, envergonhado, quase vulgar de sentir. Por trás dos olhos não há beleza - somente timidez e dúvida - quem sabe também eu esteja por lá. Talvez não importe tanto o que está atrás, mas sim o que se tem à frente dos olhos. A beleza encontra-se frente aos olhos, e seu reflexo prende quem a olhe ou a deseje. Ao redor tudo desaparece frente a sua magnitude, o que fica são lamentos de admiração, que perseguem um instante de sua atenção, nem que seja uma simples, mínima e breve feição amistosa. Será que alguém percebe que além de tudo isso existem outras feições mais reais, e não tão abstratas assim de se ver? A vitória da beleza e a derrota dos normais fazem parte do cotidiano daquele que tem o espelho como cúmplice de sua própria deformidade, que por isso perde sempre mesmo sem ao menos tentar. Talvez eu queira mudar, talvez eu não acredite, talvez eu até esteja mentindo, mas o que importa nesse caso é o real, e não o abstrato. Se um dia olhares para o espelho e perceberes que a beleza abençoou-te a face tome cuidado: um olhar fixo a outro pode não parecer nada, mas pode também deixar um coração intrigado.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 9:52 PM
Figuras e Vermes
Vivendo na insanidade de um iconófilo
Mirei ao longe nesse entardecer funéreo
Figuras funestas, de semblante amórfico
Pareciam estátuas de mica num cemitério!
Atormentavam a paz do meu corpo
Faziam de mim seu prisioneiro franciscano
Semelhante à frialdade de um morto
Como no paralogismo do verso parnasiano
Rugiam ferozes, pelas câmaras e galerias
Açoitando cadáveres, repartindo a epiderme
Retalhando suas almas na verdadeira orgia
Todos ali reunidos - as figuras e os vermes
Decompuseram seus seios em sagradas lousas
Na sepultura mais bela ornamentada com flores
Eternizando esse cemitério onde hoje repousas
No lugar em que um dia enterrei meus amores!
postado pelo Mendigo de Baquetas às 1:46 AM
Mexa os braços, dance! De um pulinho para o lado e entregue-se ao delírio da carne: você é carioca e jovem, com um pouco de sorte pode até ser atraente, e com certeza tem o mundo aos seus pés. Dancemos, gritemos, beijemos a esmo a tudo e a todos, nada mais importa exceto a potência epicurista em nossas entranhas. Deus há de perdoar seus filhos, pois afinal é carnaval, não existem razões para o bom cristão culpar-se ou se reprimir, a cinza da quarta redimirá todos os pecados praticados. Para o bom cristão eu não sei, mas para o bom ateu a paisagem e a atmosfera dessa festa pode ser às vezes muito estranha. Antes de tudo o carnaval não é uma festa do sexo. Olhe para o lado e conte quem gozou nesse carnaval; agora olhe para debaixo dos pés e conte além dos mortos, quem permaneceu imaculadamente puro ao sexo. Será que ainda assim os filhos de fevereiro continuarão a ser batizados com sêmen? Pelo jeito não, pelo jeito o sêmen foi resguardado e o batizado será feito com frustração carnavalesca, puramente cultural e não sexual de passar em branco essa data. Agora, se o sexo não é sua base, o que seria o alicerce dessa festa então? No carnaval, todos querem parecer ainda mais agradáveis aos olhos de quem vê. Os papéis são invertidos, as personalidades se modificam, a poeira se levanta e novos homens e mulheres surgem da estética. Na verdade o carnaval nutre suas forças no ego de cada homem, no prazer de sentir-se desejado a cada olhar provocante de desconhecidos que o observam. É a satisfação de despertar no outros desejos de luxúria e finalmente contempla-los ao toque dos lábios. O prazer fica pra depois, o importante agora são os números, que fazem do carnaval também uma festa quântica. Negras, morenas, ruivas, loiras, figuras belas, figuras horrendas, magrinhas tristes, gordinhas felizes, balzaquianas e até crianças, tudo são números e o que importa é o ego e o desejo desesperado de sentir-se desejado. No final das contas o carnaval é uma festa que serve muito mais para levantar egos do que poeira.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 7:54 PM