Cantinho Inóspito

Terça-feira, Abril 27, 2004

Sobre o tempo

Em mim reside o tempo. Não possui forma ou cor, não tem cheiro nem tato. É pragmático por si só, não segue linearidade e é totalmente relativo. Sinto-o somente quando abraço o passado e vejo como o tempo é um poderoso transformador do próprio tempo na sua total concretude. Os processos pelos quais age o tempo são irreversíveis, mas ao mesmo tempo mutáveis, nunca levam-nos a uma mesma realidade, mesmo que os agentes dessa realidade sejam as cartas marcadas de sempre, concretas ou abstratas. Pelo tempo tudo se destrói, nada fica sendo o mesmo, tudo e todos mudam e as relações entre sujeitos e objetos são também passíveis a essas mudanças, a esse caos que nos circunda. Esses sistemas de ações e inter-relações mudam a cada instante, não é possível assim determinar o que seria o presente em si, restando a nós somente observa-lo escorrer entre os dedos. Quando escrevi o "quando" anterior, isso ficou pré-estabelecido como o presente, assim como quando escrevi "presente", isso tomou o lugar do "quando", passando a ser novamente o presente e assim sucessivamente. O presente dessa forma passa a ser um fluxo no limiar do passado, o motor que o movimenta e joga cada instante para trás. Ninguém vê o momento exato da flor se abrir, o que realmente se vê são suas pétalas fechadas e posteriormente abertas, daí se originando a indeterminação do que seria o presente. Já do futuro, o que restam são meramente projeções. O futuro não existe, o que existe são expectativas de talvez releituras do passado, ou a evolução e ainda a revolução do ciclo presente, mas nada mais do que especulações.
O tempo dentro de mim na verdade destruiu o que eu era, todas as minhas impressões e certezas. Trouxe-me decepções, lágrimas, mas também trouxe caos e mudanças. Da maneira como há de ser, espero pelo encontro diário com o tempo, junto à suas ironias e escolhas, para que continue assim seu fluxo natural, até o dia em que viva minha morte.

"The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death"


Quarta-feira, Abril 21, 2004

Estou partindo com a certeza de que deixo pra trás minha metade mais simples e bonita. Sim, foi necessário viver um verão inteiro para conseguir ver além do que havia diante de mim, para perceber o que realmente se passava comigo. Encontrei alguém que já havia me achado há muito tempo atrás, mas simplesmente não queria acreditar. Sem dúvida estou feliz e tranqüilo. Seria até belo morrer da maneira como me sinto por agora, seria o bastante. Antes que isso aconteça, quero deixar fazer valer minha existência. Não procuro vazios, não quero mais fazer da individualidade uma barreira, mas sim uma porta aberta para outras pessoas entrarem e me verem, principalmente minha mais "velha-nova" amante. Hoje parto, mas deixo minha metade mais simples e bela nas mãos do meu amor. Toda essa metade já é, antes de partir, tão sofrida pela despedida e tão desejosa pelo retorno. Toda essa metade que deixo antes de tudo, é verdadeira, e a outra metade que parte, é também toda saudade.

Sexta-feira, Abril 09, 2004

Deus estava sentado a mesa de um bar naquele dia, vendo seu filho ser torturado e morto pelos judeus e romanos, enquanto saboreava uma gordurosa porção de calabresa com um copo de uma cerveja ordinária qualquer. Atrás dele estava eu vendo a mesma cena, mas não conseguia comer minha refeição, pois a brutalidade daquele espancamento havia tirado meu apetite. Minha concentração no Cristo era desviada pelo barulho de choro que vinha lateralmente em minha direção. Percebi que se tratava de uma senhora de meia idade, branca, altura mediana, com os olhos e cabelos negros, que eram parcialmente escondidos por um lenço usado em sua nuca. Portava uma enorme bolsa rosa sob o ombro, e alguns fichários que pareciam catálogos de algum produto de beleza numa das mãos. Do lado da mulher, um grupo de homens fazia uma roda e fumavam maconha. Era estranho, pois choravam e conseguiam rir do próprio pranto ao mesmo tempo. Tinham os olhos vermelhos e as feições lisas, que só ofereciam algum movimento quando um lapso de alegria os tomava de surpresa e posteriormente uma crise do choro se sucedia. Tudo naquele momento me irritava profundamente. A crueldade dos judeus, a inércia de Deus, o pranto da mulher e o cheiro de maconha pelo ar, nada me deixava em paz para continuar meu almoço. Fui então falar com o homem da porção de calabresa, pois era ele o mais indicado para dar um jeito na situação:

-Deus, o senhor não está incomodado com essa situação não? Teu filho está sendo mutilado lá na cruz, uma mulher chora tão energeticamente que doem os ouvidos, e uns homens ainda estão impregnando o ambiente todo com esse cheiro! E olha que nessa parte do bar fumantes não entram, tem uma placa aí na frente dizendo isso. Pra galera da fumaça, a entrada é lá pela outra esquina. O senhor não vai fazer nada não? Pelo menos acuda seu filho!
-Meu jovem, - disse Deus com uma voz fina - ele está morrendo lá pra salvar vocês. É um exemplo de sofrimento a ser seguido, o sangue dele vai confortar a todos depois. Ele o faz para que ninguém precise faze-lo.
-Não entendo, simplesmente não entendo! Exemplo de que, e resposta pra que? Será que para entrarmos no céu teremos que sofrer, sofrer e sofrer? Seu reino seria isso então, privação e sofrimento!?
-Veja bem, veja bem. Quem sofre na terra, terá paz ao meu lado. O reino dos céus é o reino daqueles que mesmo sofrendo não perdem sua fé, e continuam a crer na minha palavra. Quem sofre deve crer em mim, e que tudo será diferente na vida pós-morte, perto do meu domínio.

Não conseguia ver muito sentido naquilo tudo. Mesmo assim continuei a conversar com Deus, já não levando muita fé que ele iria fazer algo pra melhorar as coisas:
-Quer dizer que quem sofre deve continuar a sofrer, restando só a fé de que tudo irá melhorar?
-Exatamente.
-Ah, calma aê! Isso aí já é demais! E os famintos do mundo, como é que ficam? E os oprimidos por outros povos, as minorias, o que elas devem fazer? Só sentar e rezar, sem lutar?
-Foi o que Cristo fez. Ele aceitou seu desígnio. Se sofres, tenha fé em mim que serás salvo. No meu mundo não haverá opressão, choro ou fome - disse Deus.
-Não, não consigo crer dessa forma infelizmente.
-Meu filho, você é livre. Faça o que quiser da tua vida. Está vendo aquele homem bonito ali? É, aquele mesmo na esquina com uma G3 na mão. O nome dele é Lúcifer, rachou comigo há muito tempo atrás por não concordar com algumas idéias minhas e querer ser maior do que eu. Entra na fila e vê o que ele pode fazer, de repente pode até te dar uma luz...

Decidi ir até Lúcifer ver o que ele poderia me dizer, já que o plano que Deus tinha para minha vida não me satisfez nem um pouco. Fiquei uns cinco minutos na fila, até que finalmente chegou minha vez:

-O senhor é que é Lúcifer?
-Fala viciado, qué de cinco ou de dez?
-Calma, calma! Não vim comprar nada, só queria uma informação...
-Pô, foi mal aí. É que acabei de vender um pancadão de cinqüenta praqueles caras ali do canto, e como tu veio de lá pensei que tu tinha gostado do bagulho deles.

-Não eu nem fumo, venho aqui por outro motivo. Acabei de conversar com Deus ali na mesa. Não concordei muito com as idéias dele, e vim aqui pra ver se tu pode me dar uma luz. Por que o senhor rachou com Deus? Como são as coisas desse lado aqui?
Lúcifer ouvindo minhas perguntas soltou uma gargalhada ensurdecedora, não conseguindo nem mesmo controlar-se. Depois de longos instantes de volúpia, começou a falar:
-Fiel, como é que eu vou formar com um velho reacionário daqueles? Garanto que tu deve saber do que eu falo, e garanto que ele não te disse nem da metade dos vacilos de lá! Só pra tu ter idéia do que eu falo: tá ligado naquela mulher chorando pra caralho ali?
-Sei, a das bolsas e catálogos....
-Pois é, ela é a mãe do Cristo, a Maria! Tá cheia de sacolas e catálogos porque trabalha numa sex-shop, e vende alguns produtos eróticos. Só que ela não mostra isso pra ninguém, acha feio e promíscuo. É a maior hipocrisia! Pior que pegam ela como exemplo pra todas as mulheres parceiro... ela já não é cabaço desde os dezesseis, mas todo mundo acha que ela ainda é virgem! Deus pega a imagem dela, pasteuriza e vende o produto pros outros, e geral aceita! Acaba sendo formado esse padrão hipócrita da sexualidade feminina, onde virgindade é exemplo de moral!

Fiquei estarrecido com o que aquele homem me disse. De início não acreditei, mas analisando friamente realmente havia um fundo lógico. Não havia como uma mulher de meia idade daquelas ainda ser virgem, ainda mais parindo um filho. E seria interessante para o próprio Deus fazer uma outra imagem de Maria, até para colocar seu filho acima de todos os outros homens, já que ele não teria a marca do pecado original.
-E ainda tem mais maluco! - continuou Lúcifer - Tá vendo o bonde da esquadrilha da fumaça lá atrás?
-Sim claro.
-Eles são os apóstolos! Todos ali usam da erva direto se tu não sabe... e ainda vem comprar comigo, desse lado aqui. Por que que tu acha que na Bíblia existem todas aquelas metáforas absurdas e um bando de contradições? Os caras tavam todos "chapados" quando escreveram o novo testamento. Principalmente Paulo, esse aí é o mais frenético do bonde...
-Pô Lúcifer, não acredito nisso! É muita coisa junta pra mim. E como são as coisas por aqui, do teu lado?

-Aqui não existem leis, você faz o que estiver afim, sem julgamentos. A galera aqui é muito sangue-bom tá ligado, só bonde "de cria" bolado... Dá uma olhada ali pro lado que tu mesmo pode conferir.
Olhei para o lado e me deparei com uma cena única, inimaginável para qualquer um, inclusive pra mim até aquele momento. Álvarez de Azevedo, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir participavam de um ménage-à-trois, enquanto Nietzsche observava-os, contemplando a beleza daquelas formas num voyerismo filosófico que transportava aquele mundo para além do bem ou do mal. Não restava dúvidas, só tinha que fazer a pergunta final à Lúcifer:
-Como posso fazer pra entrar aí nesse lugar?
-Tu já entrou fiel! Ache um canto pra tu e vá ser livre, sem ficar de "neurose" com rótulos, recriminações ou dogmas. Agora vai vazando que tem neguinho esperando na fila.... o próximo!


Sexta-feira, Abril 02, 2004

Tinge lençóis com tinta do teu suor pelo prazer. Marca na carne tua marca e morde a boca que te beija com ardor nessa hora. Desfaz seus braços sobre meu peito e teus medos sobre minhas dúvidas, pois somos o agora e não promessas. Faz do meu corpo testemunha dos teus desejos, do empirismo dos nossos ímpetos, da comunhão de duas vontades vivas diferentes. Segue tangenciando o caos nos atos, quebrando toda linearidade do tempo, transformando o presente num conjunto de ações imprevisíveis tanto quanto irreversíveis. Atiça a química fervente em nosso sangue quando a solidão nos acompanha, quando as sombras são nossas testemunhas ao entardecer do dia e estamos um pelo outro. Prova do gosto adocicado que minha língua retém pelo toque ao jorro que surge a cada nova vontade vivida, não importando julgamentos ou remorsos sentidos. Deita em pleno leito ao meu lado e cala os gemidos que suplantam nossas vozes. Olhe meus olhos, o que vês? O mesmo castanho de antes, mas como podem ter a essência tão diferente assim mesmo parecendo iguais? Sirva da mudança para a benção da própria sorte, pois quando ler novamente o que escreveste em mim, saberás o quanto admiro tua força.