Faça da sua casa o Cantinho Inóspito
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Quarta-feira, Maio 26, 2004
A peleja do periquito com a capivara voadora
Um periquito voava até um vale de árvores sem folhas e galhos. Não tinham tronco nem raízes, só possuíam sombras. O periquito mesmo assim voava em sua direção, pois não havia mais nada o que fazer, estava bem alimentado e era frígido. Chegando no local, tentou pousar numa das sombras feita por um dos galhos de uma árvore. Obviamente o periquito frígido caiu no chão machucando uma das asas. Depois de estrebuchar, o pássaro frígido, e agora também manco, resolveu voar para outro lugar, pois havia desistido de pousar na árvore. Novamente não conseguiu o que queria. Não conseguia bater a asa machucada, e conseqüentemente não conseguia levantar vôo. Irritado, começou a lançar o bico contra o próprio peito, aplicando uma espécie de penitência por seus fracassos. Seu pequenino peito revestido de penas amarelas foi aos poucos ficando em carne viva, terminando por sangrar. O periquito, já fraco, caiu no chão pela perda de sangue, ao mesmo tempo em que percebera no céu uma capivara que voava velozmente. Ela veio voando até pousar na sombra de um outro galho, e lá de cima via o periquito sangrando no chão. Resolveu descer para perto da ave, começando a lamber o sangue que escorria do seu peito. O periquito não compreendia: como podia uma capivara voadora pousar na sombra de um galho de uma árvore, e ainda lamber seu sangue? E como ele mesmo, sendo um periquito, podia raciocinar e fazer um questionamento como esses? Não agüentando a dor implicada pelas bicadas, e de preocupações por seus questionamentos, partilhou sua angústia com a capivara, reportando a ela o que sentia. A capivara lhe disse que não sabia o porque dela poder voar ou pousar na sombra de um galho. Para ela isso era cotidiano, sempre havia voado e pousado em sombras desde filhote, assim como lamber sangue de periquitos era um costume da cultura das capivaras voadoras. O periquito não conseguia acreditar em tal fato, já que capivaras voadoras lambedoras de sangue não existiam. Sendo assim, negou a existência de tal espécie, dizendo a ela que aquilo era absurdo e não poderia estar acontecendo. O mamífero falou ao periquito que aquilo era tão absurdo quanto um periquito raciocinar e bicar o próprio peito como penitência, assim como era absurdo todo aquele mundo onde viviam. Era uma questão de percepção. Para ela, ser um animal absurdo, vivendo num mundo cercado de coisas absurdas, a fazia completamente normal, completamente ordinária e comum. A capivara terminou de lamber o sangue do ferimento do periquito, dando um beijo em seu bico, despedindo-se e levantando vôo rumo a outro lugar onde houvesse vales de sombras de árvores e periquitos sangrando. Procurava outro lugar onde o absurdo de sua existência se misturasse ao absurdo do mundo em que vivia, onde as contradições fossem tênues. Procurava um lugar absurdamente normal.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 11:05 PM
Sexta-feira, Maio 21, 2004
Quando olhei no espelho as lágrimas que corriam fortes pelos traços do rosto senti meu coração retalhar em mil pedaços. As lágrimas não eram minhas, mas a dor era nossa. A vontade de tê-la é sempre maior que a lucidez que carrego, nunca é feita de certezas e sim de dúvidas o que sinto. O que sinto é o que me machuca: o orgulho, a acefalia dos atos, minha total carência. Diante disso, me ponho de costas para o que me faz bem, me ponho de costas para quem me quer bem, e assim permaneço, até que o tempo me destrua e reconstrua o que sou ou o que era. Não adianta agir, o que há é o que se tem para sentir, e o que se tem é o que há entre nós dois. No final das contas, fica dito que o amor não serve apenas para amar, mas serve também para sofrer.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 2:09 AM
Domingo, Maio 09, 2004
É feito de traições e mentiras seu leito. Possui a Bela, além disso, é Fera, mas nem Fera é, por permitir aos seus gânglios covardia e falácias. A Bela existe sob sua custódia, não há como existir de outra maneira, ela alimenta a Fera com a sua submissão. Passam juntas as horas. A Bela vai vivendo, a Fera vai vivendo junto com a Bela, seguindo sempre o odor do seu ferormônio pela rua. Não consegue mais dividir desejo e insegurança, a heterogeneidade dos sentimentos o faz idilicamente hipócrita. Finge que ama, finge que vive, finge que não fere. Faz de um ato uma briga, de um comentário um álibi. Faz de uma coisa outra coisa, faz dele a própria sombra, faz do seu discurso um esconderijo. A Bela vem a sua morada sempre, junto com os antojos por aquela conjuntura perversa de músculos bem feitos e atos mal ditos. Transforma essa volúpia carnal em banalidades, um mero subtefúrgio de rotina, que permite que se encontrem e coexistam sem culpa. Apolinicamente acéfalo: é essa a definição por natureza de sua existência. Nutre sua força de ameaças, esconde sua grande imagem atrás da Bela, ao mesmo tempo em que é a ela vexante. A Bela às vezes se cansa e quer ir embora, mas a Fera não deixa. Sente medo, sente medo por eles. Mesmo assim ela continua, completamente só, de mãos dadas com a Fera. Sente o peso do mundo em seus ombros, precisa ter coragem por ela e por ele, mas até quando?
postado pelo Mendigo de Baquetas às 1:45 PM
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