Cantinho Inóspito

Quinta-feira, Julho 29, 2004

Confissões

Anoitece: hora em que as cigarras dão seu cântico lúgubre para o mundo.
E também minha alma é lúgubre, errante por entre túmulos.
Anoitece sobre mim enquanto procuro algum resquício de luz.
Eu não sou luz, não sou puro, não sou bom.
Existo na sombra dos passantes, próximo ao esquecimento.
Sou trevas, sou dono da culpa, não do arrependimento.
Sou maldito.

Em mim reside algo novo, revoltoso, injusto, confuso.
Que faz meus olhos escurecerem, e o peito calar, a boca secar.
Em mim reside dúvida e medo, o medo do novo, denovo!
Medo de sofrer e fazer sofrer, de chorar.
Antes fosse cândida e clara a sorte desenhada nos meus olhos.
Nos meus sonhos, nas minhas escolhas, nos meus amores.
Mas não são.

A sorte é fogo-fátuo, uma estrela cadente a passar e sumir no céu.
É um lance de fortuna que desvia e tange o caminho envolta de sua órbita, que nunca me abraça por completo, só em pedaços.
Minha vida não a possui: por isso não a temo ou sou crédulo de suas ações.
Sou possuidor de vontades mortas por tragédias antigas, congênitas em sua potência.
São elas inexoráveis, seguem revogando tudo aquilo que sempre mais quero e estimo.
E me machucam.

Surge em mim a cada novo dia a essência de uma nova angústia.
Lá fora o céu é negro, a noite nos abençoa.
Lá fora não há luz, somente trevas: o céu lá fora sou eu.
Aqui dentro o que era antes luz não mais existe, não há lembranças póstumas.
Não há o que lembrar ou lamentar; há de se fazer luz do agora e do sempre, para além do que se possa ser, estar ou sentir.
Há de ser possível.