A Conquista da Virtude
Os pobres, os vencidos e malogrados se reuniram em torno de um bem comum chamado virtude pelo último entardecer. Discutiam sobre como obtê-la, como seduzi-la e como passariam a partir dela a deixar de ser os entes sofríveis que eram. Relataram uns aos outros suas vicissitudes: os pobres praguejavam sobre sua fome e carência; os vencidos sobre sua ambição e prepotência outrora de serem virtuosos e falharem; os malogrados sobre suas doenças e enfermidades. Todos, sem exceção, sentiam-se solitários. Haviam perdido a capacidade de se sociabilizar com seus semelhantes e até com seus diferentes. Buscavam antever sua provável morte pela solidão através do contato com o próximo, pelo amor mútuo e puro entre as pessoas. Seria necessário dessa forma, para serem seres virtuosos, mudar a forma como agiam, passando a ser entes atrativos a virtude e serem passíveis de amar e serem amados. Sendo assim, fez-se a vontade dos homens na Terra. Os pobres, através do auxílio dos vencidos e malogrados, puderam saciar sua fome e sentiram-se mais aquecidos pelas mantas que lhe foram dadas. Os vencidos, vendo como os pobres puderam deixar de ser o que eram através de força de vontade e algum auxílio, tiraram isso como exemplo e passaram a ser mais humildes, não sendo consumidos por sua ambição e prepotência. Por fim, os malogrados vendo a benção que havia sido dada aos outros pela virtude, procuraram levantar-se dos seus leitos e puderam aos poucos curar suas doenças. Todos que ali estavam puderam tornar-se pessoas melhores, virtuosas, estando aptas a viverem juntas, unidas pelo amor que tinham dentro de si. No entanto, a simetria dessa tríade a partir da conquista da virtude passou a ser abalada pela dissonância do amor entres seus entes. Os pobres se apaixonaram pelos malogrados, que acabaram por se apaixonar pelos vencidos, que por sua vez viram nos pobres seu grande amor. A incompatibilidade desses sentimentos não correspondidos gerou uma crise nessa tríade, como também sua ruína. Os pobres acabaram por gastar tudo o que tinham ganho para tentar conquistar os malogrados, que voltaram a ficar doentes pelo amor não correspondido dos vencidos, que também não sendo correspondidos pelos pobres, praguejaram a virtude por ela não conseguir dar-lhes o que queriam. Novamente reunidos como eram antes de possuírem a virtude e se arruinarem, os pobres, vencidos e malogrados discutiam e tentavam achar a razão daquela sociedade ter se esvaído e o porque de amores tão puros serem ao mesmo tempo descompassados. Argumentaram durante horas e não conseguiram chegar a uma conclusão, somente a lamentos. Ao fim da tarde, já exaustos de tanto discutir, deram por fim a sua reunião e partiram, seguindo os mesmos caminhos antes já trilhados por eles. Estavam tristes, solitários, não traziam consigo mais nada além de uma única certeza. Para eles, depois de tudo o que houvera ocorrido, o amor não era nada mais do que puro descompasso, e puro desperdício.
postado pelo Mendigo de Baquetas às 12:08 PM