Bom pessoal, estou tentando retomar o blog depois de tanto tempo parado. Inspiração não me faltou, talvez sim tempo para colocar no papel. Não garanto atualizações constantes(o que nunca foi o forte desse blog), se é que alguém ainda passa por aqui. Até mais!
1
Consigo havia algo mais do que roupas, cigarros, um computador portátil e certo desânimo. Passavam-se minutos e horas, e nada lembrava tanto seu tempo perdido naquele quarto da pensão quanto a cama vazia, arrumada, com os lençóis extremamente limpos e passados. O desânimo não era mais aparente do que uma ponta de solidão que recaía, tão densa e pesada sobre seu corpo, naquele momento. Os ombros arqueavam-se à frente formando um arco assimétrico com sua coluna cervical, obrigando seus antebraços a curvarem-se para trás buscando uma posição mais confortável no espaço da cama. A temperatura local não o agradava: a alta umidade aliada ao calor que se acumulara na terra ao decorrer do dia fazia daquele final de tarde um inferno para quem lá pudesse existir, e sentir. O sol se punha, as idéias não podiam tocá-lo. O computador continuava desligado, e não havia ninguém ali para criticá-lo por isso. Fechou as janelas, ligou o ar-condicionado e dormiu.
* * * *
2
Haviam se passado cinco horas desde o nascer do Sol quando Fernando de Souza Guerra abriu os olhos. Um frio rasgou-lhe o corpo, devolvendo sua consciência que fora em seguida mais uma vez atiçada por uma forte dor nas costas. Levantou, desligou o ar e abriu as janelas, percebendo que o céu de brigadeiro do dia anterior havia se deteriorado numa manhã cinzenta e abafada de início de verão. Sacou um cigarro amassado do bolso da calça, acendeu-o e tragou, sofrendo em seguida uma forte crise de tosse. A dor nas costas implicava-lhe conjuros a cada nova contração muscular sofrida pelo tórax. Tossia à seco, não conseguia expelir pigarros, catarros, ou qualquer outra gosma que pudesse tomar sua garganta de assalto. Expelia somente vibrações sonoras, que reverberavam nas paredes do quarto voltando aos seus tímpanos, tentando fazer-lhe reconhecer sua própria tosse.
Recostado numa poltrona ao lado da cama, tendo agora já se recuperado da crise, Fernando observava a fumaça do cigarro pulverizar-se pelo ar até sumir na janela. O ambiente enfumaçado misturava-se ao dia nublado, fazendo uma espécie de degradé em tons de cinza que chegavam até o preto perto de sua boca. O cinza do ambiente fazia Fernando sentir-se mais confortável, mais relaxado, percebendo que nem tudo sempre ao seu redor foi tão colorido como ele sempre imaginou, ou talvez como ele sempre quisera que fosse. Pensava no que teria trazido ele até aquele quarto de hotel, no que faria ele abandonar a mulher em casa e viver as últimas setenta e duas horas numa solidão constante, somente sendo interrompida pelo momento das refeições que eram feitas comunitariamente na cozinha da pensão. Talvez essa solidão fosse programada, fosse necessária para ele voltar a ser o mesmo homem de antes. Talvez tivessem se esgotado suas chances de convívio social, ou quem sabe, estivesse mesmo cansado da mulher e desejasse a separação, mas só agora via realmente o problema.
* * * * *
postado pelo Mendigo de Baquetas às 1:43 AM